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Vejo vídeos, leio notícias, ouço conselhos e recomendações. Algumas parecem me repreender ou me empurrar para o abismo do ostracismo. Sigo.
Faça exercícios físicos e mentais. Não pare! Você pode ficar atrofiada, perder o equilíbrio. Neste particular os especialistas (coches) e os profissionais de academias são unânimes. Parecem querer garantias de que os velhos não vão lhes dar trabalho tão cedo.
Coma verduras, frutas, carnes magras, grãos. São sugestões de nutricionistas, chefs, donas de casa com suas centenas de receitas práticas para todas as minhas refeições.
Faça check up anual e tome as vacinas indicadas para a sua faixa etária - recomendam os médicos.
Há os conselheiros sociais que indicam dança, viagens, jogos e mais uma grande quantidade de divertimento para que os idosos saiam de casa, se relacionem e aproveitem bem seus últimos anos de vida
Finalmente, há os que me indicam um curso de informática para que eu aprenda a me proteger de hackers e também saiba navegar nos dezenas de aplicativos do meu telefone móvel. Afinal é um "saco" ficar explicando aos idosos porque a tela ficou escura ou o som está baixo.
Como todos sabem, o dia tem apenas vinte e quatro horas e a semana tem somente sete dias. Se eu seguir todos esses conselhos e recomendações meu descanso vai para o beleléu,
Mas o que me incomoda mesmo é quando, reunidos para o almoço de domingo, eles começam a citar personagens famosos, filmes "sinistros", séries "boas demais", jogos "poderosos", IAs "fabulosas" que resolvem isto ou aquilo em frações de segundos. Falam com a maior desenvoltura, riem, mostram telas e mais telas uns aos outros, em uma euforia impressionante.
Eu ali "boiando" naquela conversa "fluída" e sem sentido para os meus setenta e tantos anos. Quando tento participar da conversa, percebo que sou "persona non grata", porque uso uma linguagem demodê.
"Mãe, não é pirex, é pote de vidro"; "vó, você tem que fazer download do aplicativo"; "sogra, hoje está tudo on line", "bisa, liga no toy store, que eu quero assistir".
Como eles não entendem a minha linguagem e eu não entendo a deles, retiro-me para o meu mundo analógico e deixo rolar... a tela.